15/02/2017

DIZ-ME, FRANCESCO: QUAL É O TEU SEGREDO?!



Todo o jogador, melhor ou pior, mais profissional ou mais amador, chega a uma fase da sua carreira em que se depara com novidades que lhe fazem confusão: que a bola já não rola como rolava antes, que os adversários ficam mais rápidos a mudar de direcção, que os jogos passam a durar mais tempo do que era normal... e depois percebe que nada disto é estranho, é apenas a idade a atacar. E quando ataca, meus caros, não há experiência que nos valha.

Para um jogador de "elite", como é o caso do personagem que vos escreve estas linhas, há também outros factores externos que nos condicionam a profissão. Esses factores são vários, diversos, mas descrevem-se numa simples expressão de duas palavras: vida familiar.

Pois bem, os últimos meses têm sido o reflexo do acordar para uma nova realidade. A quatro meses de completar 40 anos, dei comigo de canadianas pela primeira vez na vida devido a um estiramento do ligamento lateral interno do joelho esquerdo. Foi a primeira vez que fiquei sem jogar mais de um mês por obrigação. Foram dois meses e meio de paragem, e o regresso revelou-se doloroso, obrigando a mais umas semanas de paragem. 

A seguir, verifico que a minha profissão adorada colide com os interesses da pessoa que comanda o Mundo, a quem foram atribuídos poderes tais que lhe permitem interferir com os direitos adquiridos dos habitantes terrestres em geral e dos futebolistas em particular, e que é tão egoísta quanto qualquer ser humano pode ser. Para quem não percebeu aquilo a que me refiro, o meu puto mais novo aprendeu a andar, desatou a mexer em tudo o que alcança e implantou o Inferno na Terra. A mãe, já quase em estado de demência devido às torturas de que foi alvo, pediu-me por tudo que a ajudasse a conter os seus ímpetos ditatoriais e impedisse que o seu domínio se estendesse ao restante território. "Bolas, mas isso implica que terei de faltar aos jogos..."


A realidade é que a competição efectiva esmoreceu nos últimos anos. De campeonatos com duração de Outubro a Maio, o FLX passou a participar apenas em torneios com 10 a 14 semanas, e alguns eventos esporádicos de curta duração. Os treinos passaram a ser mais uma peladinha de amigos, e às tantas essa peladinha até foi substituída no seio da equipa por peladinhas com outros grupos. A última competição em que participámos foi a 4 de Março de 2016, o tal dia em que o meu joelho decidiu provar que efectivamente não é de ferro... Com a ascenção do Tirano-Mór, as próprias peladinhas ficaram para segundo plano.

Assim, aos 40 anos, dei por mim a pensar que aqueles momentos áureos, aquelas alegrias que conquistámos e que me fizeram de alguma forma viver o sonho de criança, estão mesmo a chegar ao fim. Que no futuro um jogo nunca será como os jogos de há uns anos, e o meu jogo, a minha capacidade de explosão, a minha força para ganhar em corrida ao adversário e bater o guarda-redes adversário com um "tiraço", cada vez será menor... 

E que a bola nos meus pés irá ter um comportamento diferente ao longo dos tempos. Até que um dia, um qualquer dia, irá mesmo deixar de tocar no meu pé...

Amanhã, regresso ao futsal. Peladinha de amigos, pura diversão cuja importância está cingida ao "picanço" na sala do café durante a semana que se sucede. O que tem de especial?! Incrivelmente, é o primeiro jogo que disputo no ano de 2017. Aliás, o primeiro jogo que disputo desde Novembro de 2016 e o sexto da época 2016/2017. E pensar que cheguei a treinar e jogar segunda, quarta, sexta, sábado e domingo...



Francesco Totti. 40 anos, dois meses mais novinho que eu. No passado dia 1, foi dele o golo que deu à Roma (o seu único clube) a passagem à fase seguinte da Taça de Itália. Mais um, o terceiro golo em 16 jogos entre Liga Italiana, Taça de Itália e Competições Europeias. 

Diz-me, Francesco: qual é o teu segredo?


PS: ponto positivo disto tudo é que quanto mais se aproxima o fim da bola, mais angustiado fico. E estando mais angustiado, mais motivos tenho para escrever aqui! Lá para os 65, é certinho: Prémio Nobel da Literatura!

05/11/2016

O MEU DIA DE FÉRIAS DAVA UM FILME DO STEPHEN KING



Pouco passava das oito e meia quando regressei a casa. A mulher já tinha saído para o trabalho, eu tinha acabado de levar os miúdos à escola e agora... bom, agora eu estava dispensado dos treinos, para descanso e alívio mental. O próximo jogo é de Taça contra um clube de escalão inferior e serão convocados os menos utilizados, pelo que foi-me dada folga de três dias. Decidi por isso que ia fazer algo que um homem maduro e adulto faz e que não posso normalmente fazer com os putos em casa: dormir! Yeeeeh! Vá, não critiquem, pois há 16 meses que acordo a meio da noite para ajeitar o cobertor, parar birras, procurar chuchas perdidas ou dar um leitinho de reforço a um "crianço" esfomeado. E eram oito e meia da madrugada...

O problema é que não tinha sono. "Humm, tão cedo e já de olho desperto?! Não importa, ao menos está quentinho aqui!" Graças às maravilhas tecnológicas, pus-me a par da actualidade mundial e desportiva, vi as novidades das redes sociais e, inevitavelmente, tive de atacar o reino de outro incauto jogador e saquear todos os seus recursos naturais e as riquezas do seu castelo. Ah, a barbárie virtual... que maravilha!

Achei entretanto que era boa hora de me levantar definitivamente e então sim, fazer algo de útil para a humanidade. Faço a barba, ponho-me ainda mais bonito que o habitual e volto ao quarto para escolher a roupa. Nessa altura sou surpreendido por uma das visões mais aterradoras com que alguma vez me poderia deparar: um homem no meu quarto, junto à janela!


- Mas que raio está aqui a fazer?! Saia imediatamente daqui! - disse eu enquanto agarrava na cadeira de quarto da minha mulher!
O homem, um velho, de óculos "tartaruga", olha para mim e calmamente responde:
- Señor, esta es mi casa de siempre.
Bonito, tinha um "esclerosado" espanhol em minha casa, e nem sabia como este homem havia entrado.
- Amigo, venha comigo, eu ajudo-o a voltar para sua casa.- respondi enquanto o homem balbuciava mais uma série de palavras em castelhano com a mesma calma anterior.

Quando agarro o seu braço para o encaminhar para a saída, uma voz de mulher por trás de mim diz:
- Caro senhor, ele diz a verdade, ele sempre viveu aqui."
Era evidente agora que eu e a minha cabeça de vento havíamos contribuído para todo este imbróglio, ao não fechar a porta de casa.
- Oiça, não foi a este senhor que eu comprei a casa, portanto sei que não vivia aqui. Por isso, agradeço que o leve daqui e saia com ele, por favor! - disse eu em tom ainda mais agressivo, também por estar piúrso por ser distraído.
Então a senhora, numa calma tão serena quanto a do velho espanhol, respondeu:
- Senhor, ele morreu aqui. Tal como eu.

Nesse momento, olhei para a senhora, e depois esbocei um sorriso.
- Ok... já percebi tudo... um sonho. Vou acordar. Adeusinho!

Fechei os olhos, como me disseram para fazer em miúdo nos pesadelos (porque nos sonhos nós nunca fechamos os olhos, nem os piscamos, e se fecharmos, acordamos), abri-os, mas as duas personagens continuavam diante de mim. Usei então o método dos filmes e banda desenhada: belisquei-me com força! Doeu... Mas a mulher e o velho continuavam alí, calmamente a olhar para mim. Ele continuava a falar, com uma voz calma, em tom baixo mas com a velocidade característica dos espanhóis, que não permitia que eu percebesse a maioria das coisas que dizia. Decidi agarrar no telemóvel e tirar uma foto, pois das duas uma: ou serviria de prova que estas duas pessoas haviam invadido a minha casa ou não apareceriam se fossem fantasmas. Efectivamente, ao apontar-lhes o telemóvel, eles não apareciam no ecrã. Corri porta fora o mais rápido que pude, e quando chego à rua, novo choque.

"Caramba, tanta gente?! Mas que se passa aqui?!?!", pensei eu. Uma rua de bairro parecia hoje a Rua Augusta em dia de desembarque de cruzeiros do norte da Europa em pleno Verão! Tive o impulso de voltar a agarrar no telemóvel e apontá-lo em modo câmara fotográfica e 90% das pessoas desapareceram da imagem. "Isto não é possível! Mas agora ando a ver fantasmas?!?!"



Eis quando aparece o Gonçalves. Ex-companheiro de equipa no Bluetech F.C., defesa de bom porte e tecnicamente evoluído, já não o via há mais de ano e meio.
- Shôr Strik3r, 'tá bonzinho?! - disse ele, na sua forma característica de cumprimentar!
- Gonçalves!!! Ajuda-me! Preciso de ajuda urgente!

A sua expressão mudou da sua postura habitual de descontracção para um ar algo preocupado. Perguntando o que se passava comigo, convidei-o a voltar para minha casa, onde poderíamos falar melhor.
- Posso entrar?- perguntou ele quando abri a porta.
- Sim, claro, anda, por favor! Entra, porque tenho aqui um problema que não sei como resolver!

Seguimos para a cozinha. Junto da janela comecei a contar o que se havia passado, numa tentativa de não parecer muito louco. A meio, sou entretanto interrompido por três tipos pendurados na escada de incêndio, com um ar muito pouco amigável, a gritar:
- Oh meu, deixa-nos entrar! Deixa-nos entrar! Prometo que não te aborrecemos muito!

 Apontei o telemóvel para eles e, como era espectável, eles não apareciam no monitor. É nessa altura que eu deixo de rodeios e pergunto:
- Gonçalves, tu consegues ver estes três galalaus aqui pendurados!
- Claro que sim!
- Tu também os vês?!
- Sim. São fantasmas. São espíritos de pessoas que morreram na rua e procuram um sítio para se proteger, pois continuam a sentir o frio, o calor, o sol, a chuva e todas as coisas que os vivos sentem. O casal de velhotes está aqui porque aqui morreu e estão bem. Estes só entram na tua casa se tu os convidares.
- Mas que raio aconteceu para eu os começar a ver hoje?! E tu, desde quando os vês?! Como sabes tudo isso?!
- Sei isto porque é algo que aprendemos assim que morremos. É como se esta memória fosse gravada na nossa cabeça assim que "batemos as botas". - disse o Gonçalves, de forma muito calma. Aliás, ele demonstrava uma calma muito mais serena que o habitual.
- Desculpa?! De que raio estás a falar?! - perguntei, ainda mais confuso que no início.
- Que eu também sou um deles.
Aponto o telemóvel para ele e constato que se trata de um fantasma.
- Mas então... então?!... como conseguiste entrar na minha casa?!?!
- Tu convidaste-me a entrar, lembras-te?!

Eu estava completamente atónito com tudo isto.
- Mas... mas como?! Quando isso aconteceu?! Como morreste?!
- Foi há uns meses... um acidente... andava pela rua, perdido, e encontrei-te aqui agora. E estou contente, pois agora terei paz sob um tecto.

Nesse momento, ouvindo as suas palavras, sorrio. Sorrio porque percebi tudo.
- F***-se Gonçalves, obrigado. Agora percebi tudo.
- É bom, Strik3r, estou muito agradecido por poder ficar aqui na tua casa.
- Não, Gonçalves. Percebi que isto é tudo uma GANDA TANGA!!!
- Porquê? Porque dizes isso? - pergunta ele, com aquela calma já evidenciada pelo casal de velhos.
- Porque eu vi um post teu no Facebook há pouco. É tudo um sonho! HA HA HA!

Nesse momento, o Gonçalves abre os olhos de espanto e fala qualquer coisa. Qualquer coisa imperceptível e sem nexo, mas sem qualquer importância, porque tudo à sua volta começa a ficar turvo, sem forma.

- Vou acordar! Adeusinho!



Acordei na cama. Ainda não eram dez da manhã. O tablet estava tombado sobre a almofada da minha mulher. Quem diz que das redes sociais nada se aproveita, eis a prova provada que tal não é verdade. Quanto mais não seja, serve para sabermos se um sujeito está vivo, e suporta a teoria do Rui Unas (num âmbito ligeiramente diferente) de que "a verdade está na net"!

Entretanto, ri-me de mais uma aventura surreal pelos meandros da minha mente, e com a convicção que da próxima vez tenho de verificar o tipo dos cogumelos que uso para os bifes ao jantar. Sim, isto não pode ter sido só do meu subconsciente... e levantei-me da cama.

Quanto a ti, Gonçalves, desejo uma longa vida para ti. Muito longa mesmo.

19/07/2016

"ROUBO-TE O TEMPO, PARA QUÊ UM BEIJO?" OU "COMO ESCREVER A LETRA DE UM ÊXITO MUSICAL PARA TOTÓS"



Às vezes um tipo tem a plena consciência que vai começar a divagar, e que esse "divaganço" o vai levar por caminhos tortuosos, e terá um efeito semelhante ao de chegar a uma bomba de gasolina com um carro em chamas e desatar a abanar a mangueira da bomba enquanto grita "eh pessoal, g'anda chuvada", num bonito e quente espectáculo de fogo preso... Esta é uma dessas vezes.

Porquê?! Oh meus amigos, nos tempos que correm, dizer "epá, não gosto muito de açorda" é o suficiente para ter 100.000 alentejanos a fazer juras de morte a quem o confessar por atentar contra a imagem da gastronomia de uma comunidade tão singular na população portuguesa! Por isso, imaginem o que pode suceder quando alguém espicaçar uma orde de fãs borbulhentas e carregada de estrogénio polulante ao afirmar "este jogo de palavras é mesmo muito farsola"!

Pois é, meus amigos, estou neste momento a tirar a agulheta da bomba, porque vou mexer com uma música dos D.A.M.A.!


Mas antes disso, as origens. A base por onde tudo isto começou...

Eu sempre tive uma "paixão especial" por essa declaração de amor intitulada "Roubo-te um Beijo" de André Sardet. O poema é do estilo "menino do 6º ano apaixonado", e confesso que me surpreende o sucesso que teve e ainda tem hoje em dia. Pode ser de mim, é verdade, mas esta conversa não vos parece estranha?

- Olha, quero dizer-te uma coisa... Um dia destes, eu hei-de ir à tua casa para me dizeres como é.
- Dizer como é? Mas como é o quê?!
- A tua casa.
- Mas... mas tu não és ceguinho, poderás ver como ela é assim que entrares. E eu mostro-ta, com prazer...
- Pois, mas depois beberei do teu amor numa chavena de café.
- Ah... ok...

O verso seguinte até... pronto, vá lá escapa! Ele diz que dança com ela na varanda para toda a gente ver e demonstrar assim o seu desejo em conquistá-la, e depois rouba-lhe o beijo ao bom estilo de Hollywood e não o devolve, e tal... 

Mas, logo de seguida, volta à carga...

- E mais, quando for a tua casa direi tudo o que sinto, e desta vez eu não minto, prometo!
- Hum... mas já me mentiste? Isto ainda nem começou mas já está no bom caminho... 
- Quero segredar-te ao ouvido o que tenho para te dar, e depois abraçar-te até o dia nascer!
- Mas... porque não me dás logo? É preciso dizeres-me?! Estragas a surpresa assim!
- IRRA!!! Eu aqui a abrir o meu coração e tu... Porra, és mesmo chata! Estragaste isto tudo!!!

E assim se acaba uma potencialmente linda estória de amor, por causa do André Sardet e das suas rimas forçadas...

Hoje, enquanto levava o Junior para o infantário, eis que ouvi um novo grande mega-super-cool altamente bacaníssimo êxito dos D.A.M.A. intitulado "Tempo Para Quê"! E devo dizer que os jovens estão no caminho certo para serem os novos Andrés Sardetes... Sardês... Sardêts... isso. 

A intenção até é boa: um tipo amargurado com a prespectiva de perder a sua dama (piada fácil...), mas rapidamente se percebe que o fim provável desta história é ele na esquadra da polícia algemado...

- Pediste tempo para quê, hã? Eu quero-te ao pé de mim, já percebi isso faz tempo, portanto está feito, 'bora! Hein?!?! Como?! Estás melhor assim? Não... não-não-não-não-não, isso é MENTIRA! Olha para mim e diz lá isso outra vez!! Diz!!

E daqui, partimos para toda uma divagação entre os períodos em que tudo eram rosas, e amor, e corações palpitantes, e nuvens cor-de-rosa, e de como era bom, e que quer voltar a ter isso, mas que a moça estragou tudo, apesar de não ter culpa... mas que se está melhor assim, porque raio liga tantas vezes (talvez para dizer "vai-te embora da minha porta ou chamo a polícia! sim, outra vez!").

E continua mais ou menos na mesma onda, numa bipolaridade de emoções, até que na última secção o moço parte para o ataque e para o insulto, fazendo até insinuações bem explícitas relativa à intimidade do casal e num tom que pouca gente gostaria de ouvir na rua... excepto, claro, quando acompanhadas por uma bela guitarra acústica.

Onde entra o Sardet nisto tudo? Na existência de vários, muitos, toneladas de versos em que temos a sensação que o texto anda às voltas até acertar na palavra que permite a rima com o verso anterior, obviamente

O que me chamou à atenção foi uma parte da letra em que gosto de acreditar que alguém, enquanto escrevia esta letra, a dada altura pensou:

- Bolas... está quase tudo pronto, mas todos os clichés rimáveis já foram usados... e tenho aqui um bocado em falta... É que amanhã os gajos têm de gravar isto, já não há muito tempo... como vou preencher este espaço?! (PLIM!!! Fez-se luz!!!!) Já sei!!!!

E eis que tilinta nos nossos ouvidos:

Pediste espaço e tempo
Eu dei-te tempo e espaço
Em vez de espaço no tempo
Perdeste tempo no espaço

Epá... esta foi forçada... mas também, nesta história, tinha de ser algo assim, bem forçado!

E pronto... assim terminamos o escárnio sobre um dos maiores sucessos das play-lists das rádios actualmente!

Sim, eu sei, só digo mal, sou um aziado, escrevo mal, nunca fui músico, tenho a mania que sou bom, e como jogador de futebol digo várias vezes "estou feliz por estar contente"... blá blá blá... Mas confessem lá se não é giro desconstruir assim as canções?!

PS: Portugal Campeão da Europa de Futebol deu-me 80 visualizações em uma semana. Aposto que este vai batê-lo largamente e até vai ter direito a comentários e tudo! A chamarem-me tudo menos "bom rapaz", é certo, mas muitos comentários... e de miúdas, ainda por cima! :D

13/07/2016

ESTE É PARA A ETERNIDADE: PORTUGAL CAMPEÃO DA EUROPA!!!!


Adoro os Campeonatos da Europa e os Campeonatos do Mundo de futebol. Sou daqueles que ficam diante da TV a assistir a um Jamaica - Iraque e que viu entusiasmado o Roménia - Albânia. Adoro ainda mais desde que a Selecção de Portugal começou regularmente a apurar-se e a disputar estas provas. É verdade que a Lei Bosman retirou aos eventos de selecções o ónus da definição de "pináculo do futebol", dando esse estatuto à Liga dos Campeões Europeus. No entanto, há uma coisa que não muda:
  • A Champions League cria ÍDOLOS.
  • Os Europeus e os Mundiais além de ÍDOLOS também criam LENDAS.
No entanto, este seria à partida o EURO em que iniciaria a minha missão em frente à TV com menos esperança na performance da selecção de Portugal. Não pela falta de qualidade, que sempre considerei que havia em boa dose. Não pela falta de opções, pois sabia que havia bons jogadores para a equipa principal e bons jogadores para os substituir. Onde estava o problema? Na ideia de jogo de Fernando Santos, o Seleccionador Nacional, que me causa uma comichão terrível!! Gosto de futebol bonito, não gosto de equilíbrios excessivos e de preocupações com a arrumação defensiva com prioridade exagerada sobre as preocupações de como meter a redondinha na rede! Chamem-lhe defeito profissional...

As minhas críticas à Selecção já vêm de longe. Não contesto o 4-4-2 que Fernando Santos implementou com a ideia de tirar o melhor partido de Cristiano Ronaldo. Contesto sim que tenha lançado um dos melhores do Mundo da actualidade autenticamente "às feras", não lhe dando um companheiro mais posicional, um homem de área, para levar a pancada que os defesas dão e permitir assim libertar a nossa estrela, dando-lhe espaço para ter a bola de frente para a baliza (onde ele é mais forte, explorando o espaço) e não de costas, sujeito à marcação impiedosa dos centrais. Além disso tem tendência para descer no terreno na procura da bola (porque CR7 quer a bola), trazendo consigo a linha defensiva adversária e assim tirando espaço de construção à Selecção Portuguesa quando estamos em posse. Alguma crítica especializada não está do meu lado, argumentando com o facto de em 8 jogos do apuramento termos vencido 7, os do legado de Fernando Santos. Eu, que sou um mero curioso, contra argumentava com factos: tudo vitórias por um golo de diferença, dificuldades em derrotar a Arménia por 3-2 e vitórias "caídas do céu" no final do jogo contra Dinamarca, Sérvia e Albânia. Nos 23 convocados, um único ponta-de-lança: o trapalhão Éder. Fernando Santos estava a dar comigo em doido!!!

Dia 14 de Junho, dia do primeiro jogo no França 2016, frente à surpresa Islândia, que na fase de qualificação "arrumou" a Holanda. Meio-campo com João Moutinho movido a gasóleo, André Gomes com cola nos pés, Cristiano Ronaldo fisicamente nas lonas e Nani no apoio ao capitão como peixe fora de água. O mesmo Nani ainda faz um golo, mas uma desastrosa (des)organização defensiva no ínico da segunda parte propicia aos Vikings o empate, e o desnorte apodera-se da Selecção das Quinas. Cristiano passa o resto do jogo a atirar bolas para o quintal ou contra barreira em livres confrangedores. Resultado final: empate 1-1. Um deslize normal, dizem os mais optimistas. Um prenúncio de ecatombe, prevejo eu.
 

Portugal defronta depois a Áustria... e nem de penalti marca. O empate 0-0 faz soar o alarme, pois em 54 remates marcámos um miserável golo em dois jogos. É no rescaldo desse jogo que quando Fernando Santos diz, para gáudio de todos os humorístas: "Já disse à minha família que só vou para casa dia 11 do mês que vem. Por isso, ainda vou estar aqui muuuuuito tempo..."


E eu, obviamente, disse que ele era um idiota...

E a Hungria, aparentemente, dá-me razão. Novo empate, 3-3! Tantas cautelas defensivas e a equipa desmembra-se num acumular de erros infantis. Mas seguimos em frente... E novo empate aos 90 minutos frente à Croácia, que venceu a Espanha com coragem mas amedrontou-se contra "CR7 e os seus amigos"! Só que agora, alguém tinha de ganhar e vai-se para prolongamento. Quando cheirava a penaltis, os croatas arriscam um pouco e quase marcam... no contra-ataque, GOLO do Quaresma! Um golo que eu festejei e dez segundos depois disse ao meu pai "epá, vamos ganhar este jogo sem saber ler nem escrever..."

 
Nesta altura, a imprensa internacional já diz que Portugal é a equipa mais enfadonha, com o futebol mais chato mas mais organizado de todo o EURO 2016. A imprensa francesa vai mais longe, classificando-nos de "nojentos" e "indignos de uma presença nos quartos de final". Sem uma exibição de encher o olho, sem entusiasmar e também sem um adversário top pela frente para se poder dizer que haviam sido realmente postos à prova, a Selecção estava entre as oito melhores da Europa. Entre os portugueses já se usa uma expressão que ficou para a história: "De empate em empate até à vitória final!"

Quartos de Final: Polónia! Golo de Lewandowski aos 90 segundos. O puto-maravilha Renato Sanches empata aos 33. Mais um empate nos 90 minutos, o quinto em cinco jogos, que nem o prolongamento desfaz. Penaltis. E o primeiro momento EURO: Cristiano Ronaldo mostra ao Mundo o que é ser um capitão!

Cinco penaltis, cinco golos e uma defesa para a eternidade de Rui Patrício, o Guarda-Redes do EURO 2016. 


E estávamos nas meias-finais. Nesta altura, até o adepto menos crente e menos entusiasmado, como era o meu caso, percebe que tudo pode acontecer. Estamos a dois jogos do fim, principalmente quando numa meia-final da prova temos pela frente o estreante País de Gales. OK, venceu o grupo da Inglaterra... OK, "espetou" 3-1 na Bélgica recheada de estrelas milionárias do futebol mundial... mas caramba, é o País de Gales, que tem Gareth Bale, Aaron Ramsey e uma série de jogadores da 2ª divisão inglesa!!!

A Selecção cumpriu, com uma vitória incontestável por 2-0, a primeira em 90 minutos. Cristiano Ronaldo e Nani, os marcadores de serviço, colocam-se em posição para tentar roubar a Bota de Prata ao francês Antoine Griezmann, que tinha na altura quatro golos. Mas na outra meia-final, Griezmann aproveita o descontrolo defensivo da Super-Alemanha para marcar dois golos, fugir aos perseguidores e carimbar a presença da França na final do seu EURO 2016.


Acaba o França 2 - Alemanha 0, e a minha mulher pergunta: "então e agora, vamos levar um guardanapo dos franceses, é isso?" Olho para ela, faço uma pausa, e com uma timidez muito pouco normal neste tipo de ocasiões, respondo: "Epá... queres saber uma coisa?... Epá... Eu acho... Eu acho que a gente ainda vai «limpar» isto..." 

A razão para esta "fezada" não estava vazia de argumentação. A França derrotou a Super-Alemanha num jogo em que foi completamente acossada durante 90 minutos, beneficiando da paragem cerebral de dois jogadores alemães. Primeiro, antes do intervalo, Schweinsteiger faz um penalti infantil. No início da segunda parte, Kimich perde uma bola na sua área. Griezmann não perdoou ambas as "brincadeiras", mas ficou a clara ideia que como equipa a Alemanha era 10 para 1 de uma França que viveu ao longo do EURO de rasgos individuais. Se achava que contra a Alemanha as hipóteses de Portugal seriam quase nulas, pelo facto de a postura medrosa nos poder empurrar para cima da nossa baliza, eu via a França como uma selecção com muitas lacunas na sua organização.


Sexta e sábado evitei as redes sociais e expressar muito o que me ia cá dentro, porque apesar não ser supersticioso (porque ser supersticioso dá azar), não queria que algo agoirasse o feeling que tinha. Domingo, dia 10 de Julho, dia da final, passei o dia a mentalizar-me que íamos perder, que se noutras ocasiões com equipas quase míticas não ganhámos, não seria agora que íamos conseguir, carregados de preocupações defensivas e sem perfume lusitano no nosso jogo.

Já muitos definiram o enredo do passado dia 10 de Julho como um mau argumento de um filme de série B que poucos se dignariam a pagar bilhete de cinema para ver. Imaginem esta história:

"Era uma vez um grupo de fazendeiros comandados por um cavaleiro gigante que foi lutar contra os Ogres da Montanha. Onde? Na Montanha! E logo mal os vêem chegar ao campo de batalha, os ogres matam o cavaleiro gigante. No entanto, os fazendeiros vão fazendo tudo por tudo para não serem atirados pela ravina abaixo, até que o fazendeiro côxo desfere um golpe com a sua espada e mata os ogres todos! FIM!"


Não foi tanto assim, mas anda lá perto. CR7 lesiona-se aos 8 minutos, tenta continuar, mas sai de maca aos 23 minutos. Portugal perde o seu capitão, a sua estrela e maior referência, e é aí que começa um curioso (mas apesar de tudo chato) jogo de xadrez que Fernando Santos acabou por jogar com mestria. Tive a oportunidade de rever o jogo sem a emoção do imediatismo, sabendo obviamente como acaba, e é interessante perceber que o futebol deu lugar a um jogo psicológico e a toda uma preparação para colocar as peças ao longo do tempo nos sítios certos para no fim desferir o golpe final.

O momento chave dá-se aos 78 minutos. Éder, o mal amado, entra para o lugar de Renato Sanches e fixa-se na frente de ataque. E a França perde a bola definitivamente: faz só um remate com perigo para a baliza (bola no poste, é certo) entre os ditos 78 e os 120 minutos.

E aos 109 minutos, nasce a lenda deste EURO 2016. Éder, o fazendeiro côxo, mata os ogres azúis. Os ogres azúis que nos fizeram tanto mal no passado.



Fernando Santos fez-me morder a lingua, já bem carregada de pimenta por o ter chamado de idiota no dia 19 de Junho. Continuo a não gostar da sua forma de pensar o futebol, mas fiquei fascinado com as suas capacidades no xadrez, pois foi esse xadrez que me deu a chance de assistir em directo à página mais bonita do futebol português. É óbvio que gostava de ter ganho com uma equipa que me fizesse sonhar do primeiro ao último minuto e me levantasse o rabo da cadeira a cada jogada deslumbrante... mas que se lixe isso tudo agora! Apreciações ao jogo ficam para depois!!!
 

SOMOS CAMPEÕES DA EUROPA!!! ESTA NINGUÉM NOS TIRA!!! ESTA NINGUÉM ESQUECE!!! NUNCA MAIS!!!!

30/05/2016

REGAR A RELVA EM DIA DE CHUVA.

Termina mais uma época atarefada do vosso ponta de lança preferido, e o veredicto não é positivo. A lesão no joelho contraída em Março condicionou o final de época e pode não estar completamente debelada. Isso e os meus tiques de vedeta fizeram com que as opiniões fossem poucas durante muito tempo.

Muito aconteceu entretanto. Senão vejamos:

- Tudo começou com o Sótraste, caído em desgraça nas eleições, a ir para Paris de boina ao lado estudar enquanto reside num apartamento de luxo de um amigo. Os colegas não gostaram de o ver a chegar de Bentley todos os dias e a acender cigarrilhas com notas de 100€, queixaram-se e ele foi de cana! No entanto, o festival patrocinado pelo Correio da Manhã foi tal que o gajo de quem ninguém gostava é hoje visto como um herói injustiçado por alguns, e até eu acho que o estão a tentar apanhar sem ter por onde agarrar.

- Veio o Pedrocas, cortou tudo e cortou em todos, excepto em quem tinha bastante, agarrou-se à cadeira de sonho como uma mosca a um pingo de caramelo, e até beijaria o Paulinho das Feiras para lá continuar. Este fez chantagem, decidiu sair, mas voltou com a promessa de mais galões! O que eles não contavam era com a "esquerdalha inconsciente" a ganhar responsabilidade e unir-se com o Tony Costa. O Pedrocas voltou para a bancada, à espera de ser emprateleirado! Quanto ao Paulinho, pirou-se antes que fosse emprateleirado! Entre mortos e feridos deste Armagedâo Vermelho, o PAN tem um deputado na Assembleia da República!

- O Cavaco está reformado, finalmente, para bem do país. E nem uma piada merece sobre o assunto. O Marcelo é o novo PR e tem sido mais Presidente em 3 meses que o outro em 10 anos!

- Voltou tudo para trás: privatizações, medidas laborais, cortes salariais, e finalmente é possível casais gay adoptarem crianças! A Miss Alemanha meteu mãos à cabeça. O Pedrocas pede castigo, a Sãozinha também mas menos descaradamente, mas o Tony continua a juntar a malta à mesa e a sair das reuniões triunfante. Se calhar, é ele quem paga a conta, e vamos a ver se não paga toda no fim...

- Os estivadores estiveram em greve 34 dias. Pairou a ameaça de despedimento colectivo. O Tony foi lá e pimba! Assunto arrumado, tudo de volta ao trabalho de sorriso nos lábios!

- O tema mais complicado estava a ser o caso dos colégios com contrato de concessão. Mesmo aí, o Tony e os seus colegas decidiram bem! Têm uma minoria irrisória a protestar e uma cambada laranja e azul a defendê-los com argumentos tão fortes como "vocês vão por professores no desemprego", esquecendo o que foram os últimos 4 anos em matéria de educação. Mais valia dizerem "vocês cheiram mal dos pés", teriam certamente mais credibilidade e alguém a dizer "epá, estes tipos têm alguma razão!"

Por isso, fico com a sensação que há muita gente preocupada com o mês de Junho. Principalmente o Tony! É que a vida corre-lhe tão bem que estará neste momento a pensar:

"Caramba, não podemos adiar o EURO 2016 e a COPA AMERICA CENTENARIO para a altura da discussão do Orçamento de Estado 2017? É que agora está tudo bem, há consensos e não temos medidas crispatórias para tomar, e estamos a desperdiçar trunfos destes, pá! Um mês inteiro de futebol para distrair a malta quando está tudo bem é como regar a relva em dia de chuva!"

Concordo! Adiem, para ver se ainda sou seleccionado depois de curado! Se o Ricardo Carvalho e o Ederzito podem ir a França, eu também posso! E tenho esperança!

Copa América Centenário e EURO 2016 aqui no "Angústia...", só para chatear!


20/01/2016

PODIA SER CANDIDATO A SANTO... MAS A MOSTARDA NÃO DEIXA.



Eu, como qualquer ser consciente, moderno, "prá frentex" e todo cool, ando pelas redes sociais. E é natural que nos últimos tempos as pessoas pensem que ando assim um bocadinho para o nervoso! A realidade é que ultimamente o destino tem-se encarregado de largar à minha volta os maiores tipos "pé-de-chumbo" que possam imaginar... Para quem não joga à bola, é como se o Cristiano Ronaldo fosse contratado para jogar pelas escolinhas do Figo, escalão 3-5 anos.

Estou a ser injusto com os miúdos, confesso, pois aqui não se trata de uma questão de talento em si, mas de atitude. Se haveria coisa que aqueles meninos dariam ao Cristiano Ronaldo era tudo o que tinham para demonstrar que ele podia contar com eles. No meu caso, estes gajos acham que o facto de eu assistir à sua imbecilidade na primeira fila é uma honra à qual só os melhores têm direito.
Não perceberam ainda? Passo a explicar...

Imaginem vocês, na vossa profissão,  que estão no meio de algo muito importante:
- um chef a meio de elaborar a ementa para a recepção à Rainha Isabel II;
- um agente da Judiciária escondido atrás de uma parede prestes a surpreender uns barões da droga em plena negociata;
- uma advogada no interrogatório do tribunal prestes a enterrar o arguido e a fazê-lo confessar o crime;
- um neurocirurgião a reconstruir a espinal medula de alguém que vai voltar a andar após a intervenção. 

E de repente, eis que o telemóvel toca. E é "o tipo que fala com os outros". Em todas as empresas ou actividades profissionais existem tipos cuja função é falar com alguém fora da empresa ou do grupo profissional em que estamos inseridos. Directores de comunicação, gestores de contracto, relações públicas, todos têm a função de garantir que entre o grupo A e o grupo B só haja uma via de comunicação. É por isso essencial que quem fala com os outros saiba do que está a falar...

Chega de bla-bla-bla... estava eu a meio de algo do género acima referido quando me ligou o meu "tipo que fala com os outros"!
- Grande Strik3r! És o maior! Esse pé direito de ouro! Como estás?
- Estou bem, e tu? Diz-me rápido o que precisas...
- Olha, lembras-te daquele pedido que te fiz numa quinta-feira há duas semanas, para criares um esquema sobre chutar à baliza com a cabeça, para passar ao treinador dos juvenis?
- Não é nada disso, foi na sexta-feira de há três semanas, era um plano de treino completo para apurar a técnica ideal para abordagem à bola para cabeceamento para golo, e isso foi-te enviado na segunda-feira, logo pela manhã!
- Epá, excelente! Isso é que importa. Olha, eu estou a ir agora reunir-me com ele, e queria pedir-te o favor de me reenviares isso. É possível?
- Não! Já to enviei há 3 semanas. Neste momento tenho um penalti para marcar que pode-nos dar a vitória no jogo e o árbitro está a dizer para me despachar.
- Epá, é que não tenho rede aqui, estou no telemóvel e assim era mais fácil.
- Pois, mas é tudo uma questão de prioridades: ou volto ao jogo, marco o penalti, faço golo e avancamos para as meias finais da Taça, ou peço substituição e vou lamber mails. O "mister" já não está a achar graça à conversa...
- Epá... pois... Epá... pronto, eu acho que posso ver no portátil quando lá chegar...

Agora digam-me: uma massagem nas costas deste gajo com um taco de baseball ao ritmo do sapateado dos Lords of the Dance não era algo ainda generoso para ele? 

É nestas alturas que o patrocínio que tenho da Savora obtém mais retorno! Consta que estão muito satisfeitos...

14/11/2015

NÃO SE TRATA DE RELIGIÃO!

13 de Novembro de 2015. Uma sexta feira supostamente normal termina com um dos ataques terroristas mais fraticidas e cobardes da história recente da Europa. Em Paris, um estádio de futebol, uma sala de espectáculos e vários outros locais lúdicos foram o palco perfeito para passar mensagem, segundo uns iluminados que acham que são os detentores da verdade absoluta. A mensagem, essa, foi simples: tenham medo.

Ao matarem pessoas perto do Stade de France (palco da futura final do EURO 2016 de futebol) onde se jogava um França-Alemanha, no Le Bataclan durante um concerto de uma banda norte americana, e em vários restaurantes e  zonas públicas movimentadas numa normal noite de sexta feira, o objectivo foi atingido de forma evidente. Pelo menos, no curto prazo.

Estamos perante um cenário que hoje coloca várias incógnitas ao futuro da civilização europeia. O Espaço Schengen é o primeiro, do ponto de vista político, mas se calhar o menos importante para a vida das pessoas.

Continua-se a associar este tipo de situações, principalmente as ligadas ao ISIS, à religião e ao islamismo radical. No entanto, a explicação é mais simples e, provavelmente, pior. Trata-se apenas de poder e exploração da maldade humana.

Os terroristas que atacaram o Charlie Hebdo e ontem toda a cidade de Paris são presumivelmente muçulmanos, mas podiam ser católicos, protestantes, hindus, budistas ou cientólogos. Ou outra coisa qualquer. Aquilo que o ISIS faz não é uma guerra santa, é guerra pura, simples e dura. Não são radicais convertidos que cortam cabeças a jornalistas, matam e traficam mulheres e meninas, destroem património cultural mundial e assassinam pessoas normais em vidas normais. São homens a quem foi prometido esse poder de contornar leis e perpetrar o mal sem consequências, porque mesmo que morram serão sempre considerados heróis!

Reparem nuna coisa: quando a um assassino preso era dada a hipótese de liberdade, desde que fosse para ir numa caravela mar dentro, e quando se encontrasse terra desatar a matar índios em nome da Igreja de Roma, a escolha desse homem era óbvia. Aqui a coisa funciona um pouco da mesma forma. Depois, é só esperar que esse elemento dê liberdade a toda a sua frustração para quem o chamou recolher os frutos e ser também ele um herói reconhecido.

Por isso, volto a referir: isto nada tem a ver com religião. É preciso separar os que apenas pretendem dar asas à sua maldade recalcada através de um poder que lhes é dado imediatamente na forma de uma metralhadora, dos que têm fé numa entidade superior e respeito pela vida, pelos outros e pela civilização. Com excepção das famílias das vitimas, essas pessoas de fé são quem mais sofrerá com este ataque nos próximos meses...

14/07/2014

FINAL - ALEMANHA 1-0 ARGENTINA: CHAVE DE OURO DE GOTZE PÕE TAÇA DO MUNDO NO COFRE ALEMÃO!


Que melhor maneira de fechar o melhor Campeonato do Mundo dos últimos 30 anos com um jogo pleno de emoção, mas onde ficou patente quem era melhor, quem era mais equipa, quem mais queria ganhar, do primeiro ao último minuto. E no fim, justiça seja feita, essa equipa ganhou: a Alemanha.
 

Dois estilos distintos na forma de abordar o jogo e procurar o êxito deram-nos 120 minutos de futebol intenso, não muito espectacular, mas que fez qualquer amante do jogo ficar pregado à televisão. E no Mundial dos golos bonitos e dos grandes guarda-redes só podíamos desejar que a Final tivesse tudo isso... e teve.
 

Manuel Neuer foi efectivamente o GRANDE guarda-redes deste Mundial, apostando na sobriedade e na análise prévia e pormenorizada aos lances contra a espectacularidade de outros. A confiança que um guardião destes dá aos seus colegas da defesa permite que toda a equipa trabalhe de forma mais confiante o processo ofensivo, pois sabe que se algo correr mal na transição defensiva está lá Neuer. E se analisarmos bem, os falhanços de Higuain e Palacio são claros exemplos de intimidação prévia.

Sabella montou a equipa como sempre montou, num estilo de "segura atrás e fé em Messi", visto que nem Di Maria estava disponível e Enzo não é de todo um desequilibrador pelo flanco. E se a Argentina teve a capacidade para importunar a Alemanha nos pequenos periodos iniciais de cada parte dos 90 minutos, a realidade é que a Alemanha usou a sua capacidade de passe para ir moendo os Argentinos e a oito minutos do fim dar a estocada final, com um golaço de Gotze, após 112 minutos em que foi claramente superior a Messi e seus companheiros.

Se é verdade que acho que esta Argentina pode jogar mais e menos cinicamente que aquilo que demonstrou neste Mundial, também acho que provavelmente a alviceleste era a selecção com menos qualidade geral das quatro que chegaram às meias-finais. O processo de Sabella deu-lhes o vice-campeonato, que é para todos os efeitos meritório, mas fica a ideia que uma selecção tão retraída poderá ter inclusivamente prejudicado Lionel Messi, que não foi nem de perto o melhor jogador do Mundial.


Esse prémio, para mim, deveria ter sido entregue a Arjen Robben, que foi o jogador mais decisivo em permanência de todos os que estiveram no Brasil. É pena que o Génio de Vidro, que apresentou uma invulgar resistência, não tenha a mesma máquina de marketing de outros e não seja visto pelas entidades competentes como o fantástico jogador que é!

E para terminar, resta-me dizer que este mês que passou já me deixa muitas saudades...


10/07/2014

MEIA FINAL - HOLANDA 0-0 ARGENTINA - ZZZZZzzzzzz... ZZZZZZzzzzz... HUM?!?! HEIN?!?! JÁ ACABOU?! ÓPTIMO!


Provavelmetne, nunca uma crónica de uma meia final terá sido tão fácil de escrever. Mas o pior de tudo é que nem há muito a dizer, pois estamos perante duas selecções que renegaram todo o seu passado de brilhantismo futebolístico para optar por uma fórmula que nem sequer se pode considerar de resultadista sem ofender Giovanni Trapattoni!

A Holanda foi fulgurante com a Espanha e se colocou-se desde a primeira jornada sob os olhos gulosos de quem gosta de futebol, pois apesar de colocar os seus jogadores em campo numa prespectiva de marcha atrás, a verdade é que permitiu a libertação da magia de Wesley Snijder, Arjen Robben e Robin Van Persie. O problema é que ao segundo jogo já percebíamos que afinal o 5-1 aos campeões mundiais mais não foi que aproveitar o desmoronar físico de Xavi, Iniesta e companhia, com exibições ganhadoras mas pouco cativantes e demasiado amarradas nos restantes jogos. Isso foi principalmente notório nos jogos a eliminar, em que derrotaram o México com um penalti que divide opiniões nos minutos finais e derrotaram a Costa Rica nos penaltis, mais com jogo mental que com jogo jogado.


A Argentina não foi muito melhor. A diferença para a Holanda é que venceu todos os jogos até esta meia-final, mas sempre pela margem mínima, sempre com exibições fracas, sempre com dificuldade... mas venceu. Ficou a sensação de que cumpriu os requisitos mínimos, mas que também não tinha capacidade para ir mais além se necessitasse. A realidade é que Messi desbloqueou um empate já de si generoso com o frágil Irão, derrotou a Suíça quando já "cheirava" a penaltis e acabou por fechar-se no seu meio-campo contra a Bélgica após um golo aos 7 minutos.

Por isso, hoje defrontaram-se duas equipas cujo principal objectivo era não perder. E foi isto, durante 120 minutos, com alguns lances de frissom (mal seria), duas oportunidades claras para a Argentina e uma para a Holanda, com Messi fora do jogo, Van Persie a fazer-lhe companhia onde quer que estivessem e Robben a ser o único que realmente vestiu o equipamento e tentou qualquer coisa. O sumo que se extrai deste jogo, demasiado fechado, demasiado equilibrado defensivamente, demasiado temerário e espectante pelo erro do adversário, é tão curto que no fim o copo está tão vazio que o melhor que se pode dizer é que passou a equipa que melhor marcou as grandes penalidades.

09/07/2014

MEIA FINAL - BRASIL 1-7 ALEMANHA - "MARACANAZO" É FICHINHA FACE À "HUMILHAÇÃO DO MINEIRÃO"


Por vicissitudes da vida pessoal, é curioso que poucos foram os jogos que vi na totalidade em directo deste Mundial, sendo essa a razão para só nas meias finais voltar às crónicas dos jogos. E se um Brasil vs Alemanha não fosse motivo mais que suficiente para voltar às lides da escrita, este jogo histórico obrigar-me-ia a tal, mesmo se não tivesse assistido ao jogo.

À pergunta que muitos me fizeram hoje sobre o palpite para o vencedor do jogo, a resposta foi sempre a mesma: "é um-dó-li-tá". E por isso é que o futebol é um jogo tão fantástico.

O Brasil apresentou-se cinzento neste Mundial, muito pouco "mandão", com magia nos ombros de Neymar e, quiçá, com o planeta inteiro sobre os jogadores com a quase exigência do "Hexa", que ultrapassaram nos 1/8 de final o grande Chile no desempate dos "penaltis" depois de terem estado à beira da eliminação. Curiosamente, num misto de competência de Scolari e desacerto na preparação de Pekerman, o Brasil tomou conta do jogo com a Colômbia, ganhou bem e parecia claramente que o caminho das boas exibições tinha sido encontrado, mesmo que tenha perdido Neymar de forma tão inesperada quanto revoltante. Ainda por cima, apesar do lado negativo da pressão do "Hexa", o factor casa é sempre muito importante, ainda mais na fase a eliminar.

A Alemanha, por seu lado, tinha sido até aqui a equipa mais consistente em campo nos cinco jogos realizados. Mesmo sem deslumbrar na primeira fase, os alemães sempre resolveram os seus problemas no seio da equipa e nunca através da inspiração de um jogador. Com o Gana, aproveitaram-se da ingenuidade dos africanos para empatar um jogo que se complicou e para empatar (e estiveram perto da vitória) e nos 1/8 defrontaram uma surpreendente Argélia, naquele que foi, para mim, o melhor jogo deste Mundial. Em suma, quando foi necessário arregaçar as mangas e sujar as mãos, a Alemanha fê-lo de forma magistral. Não admirou por isso o domínio quase em estilo de passeio frente à França, que demonstrou que Pogba e um Benzema inspirado chegam para passar equipas de segunda linha mas não dão sequer para colocar em sobressalto uma equipa de topo. Tenho sérias dúvidas que a França ultrapassasse a Argélia, por exemplo...

Era neste cenário que o jogo se inicia. Ao contrário do que eu contava, Scolari apostou em Bernard para substituir Neymar. Eu pensava em Willian, que tinha-se apresentado bem sempre que saiu do banco, mas havia quem apostasse num "triângulo de trabalho" no meio, com Paulinho, Fernandinho e Luis Gustavo, para parar a Alemanha. E tudo se decide ainda antes do apito inicial: o resultado final foi de 7-1, mas Joachim Low venceu Scolari por 15-0 na preparação do jogo. E isso reflecte-se no resultado final.

O Brasil tinha como plano de jogo apostar na velocidade de Hulk e Óscar com lançamentos para as costas dos laterais alemães. E pronto. Resultou durante cinco minutos, a Alemanha estabelizou linhas, corrigiu posições, e do Brasil depois... puff. A história do jogo tem algumas semelhanças com o jogo Alemanha-Portugal: ambas as equipas adversárias se "estrassalharam" todas com o primeiro golo alemão aos dez minutos e ambos os jogos acabaram à meia-hora, sensivelmente. As diferenças é que Portugal ainda se recompôs e demonstrou capacidade para discutir o jogo até à expulsão de Pepe e que quando o jogo acabou, Portugal perdia por 2-0 com 10 jogadores em campo e o Brasil perdia por 5-0 com 11, sem penaltis, sem lances de mínima dúvida, nada.

O 1-0 é o exemplo perfeito de onde Low bateu Scolari: na sala de palestra. Kroos arrasta Dante para junto de David Luiz, que está a marcar Muller. Quando o Muller arranca, o brasileiro do Chelsea está preso por Kroos e Dante, e Muller finaliza sozinho, no meio da área, porque todos os brasileiros fora, tal como Dante, atrás de alguém e abriram a área para o jogador do Bayern. Puro lance de laboratório, onde fica evidente que Low viu como o Brasil defendia nos cantos e que Scolari não sabia como a Alemanha atacava... nem como o Brasil defende, o que é mais grave ainda.



Depois disto, entrou a parte mental do jogo, com Fernandinho a falhar duas intercepções e a perder uma bola, Marcelo a não manter a linha recuada, David Luiz a ir à "queima" constantemente e em quatro minutos o Brasil vê o placard aumentar de 1-0 para 5-0, resultado aos 29 minutos. Fim de jogo, o resto são extras num filme recheado de tortura para os brasileiros, com o descontrolo de Scolari a atingir o ponto mais alto quando substitui Fred, assobiado, vaiado e insultado, apenas e só para dar uma pequena satisfação à torcida.  Um jogo histórico por todas e mais algumas razões:

- Nunca uma equipa tinha sofrido 5 golos em tão pouco tempo de jogo;
- Nunca uma equipa anfitriã tinha sido tão copiosamente goleada;
- Nunca uma meia-final tinha sido tão desequilibrada;
- Nunca se tinham marcado tantos golos numa meia-final;
- Nunca o Brasil tinha sofrido tantos golos num Mundial;
- Miroslav Klose é agora o melhor marcador em Mundiais, ultrapassando Ronaldo "Fenómeno";

A Alemanha retira todas as dúvidas sobre as suas qualidades e capacidades. Cilindra o Brasil de forma convincente, apresenta um jogo objectivo, rápido, de posse mas em progressão e em busca da baliza adversária, com Thomas Muller a ombrear neste momento com Arjen Robben pelo título de Melhor Jogador do Mundial e com uma grande injecção de confiança para a Final. Quem vier que se cuide.

É um escândalo imenso para o futebol brasileiro, não o facto de ser eliminado do Mundial caseiro nas meias-finais, mas sim da maneira como foi. Muitos ainda nem perceberam que raio se passou, mas quando saírem do coma deste atropelamento e fuga para a final da "Die Lokomotive" perceberão o que os jornais começam a dizer: esqueçam o "Maracanazo", isso é um conto de fadas comparado com a "Humilhação do Mineirão".

Mais um capítulo daquele que considero, sem sombra de dúvida, o melhor Campeonato do Mundo de Futebol que eu assisti até hoje... Só tenho pena que já só faltem três jogos para acabar.

19/06/2014

GRUPO B - ESPANHA 0-2 CHILE - O FIM DO REINADO!


Não deixa de ser irónico que no dia em que Juan Carlos I abdica oficialmente do trono espanhol em deterimento do seu filho Filipe VI a selecção espanhola, campeã em título, esteja por decreto oficial fora do Campeonato do Mundo 2014 a partir do próximo dia 23 de Junho. Se é um escândalo mediático o afastamento dos espanhóis, quem viu os jogos aceita esta situação quase com uma normalidade mórbida face à triste realidade: esta Espanha tem os mesmos jogadores mas a qualidade do seu futebol nada tem a ver com o que foi praticado nos últimos seis anos. Mas não se tratou só de demérito espanhol, longe disso.

Quem me ouviu falar antes do Mundial começar sabe que sempre disse que o Chile era um candidato a dificultar a vida às duas favoritas Espanha e Holanda. E hoje os chilenos não só "arrumaram" a Espanha como puseram Scolari a pensar que se calhar vai ter umas noites complicadas para dormir de hoje em diante, não só porque o Brasil joga pouco como ainda por cima irá apanhar a super-motivada Holanda ou este irreverente Chile!

Os chilenos apostaram hoje no seu mais normal esquema com três centrais com pouca evergadura física que chegaram e sobraram para uma Espanha que há muito perdeu objectividade atacante. Isso permite ao Chile povoar o meio campo com Isla à direita, o centro com Marcelo Diaz, Charles Aranguiz e Arturo Vidal, Mena sobre a esquerda e na frente o dinâmico Alexi Sanchez e Eduardo Vargas, ambos bem conhecidos do campeonato espanhol. Quanto à Espanha, apenas tirou Xavi e Piqué relativamente ao jogo com a Holanda.

O tiki-taka é mortífero quando se executa em ritmo alto o "passe e corte" e isso não é uma característica desta Espanha. Além disso, a pressão que as equipas holandesa e chilena, com meio campo bem povoado, exerceram sobre os jogadores espanhóis que estão sobre as alas permitiu-lhes roubar a bola ao adversário com muito mais facilidade do que tinha sido habitual desde 2006. Depois, bastou rodar rapidamente o jogo e lançar ataques com jogadores rapidíssimos, como Robben, Van Persie, Sanchez e Vargas para destroçar uma defesa espanhola que raramente teve o apoio dos seus trincos, constantemente batidos nas recuperações defensivas. O primeiro golo do Chile é tirado a papel químico aos golos de contra-ataque obtidos pela Holanda, muito graças ao virtuosismo que o Chile tem no seu meio campo e linha avançada.
 

Depois, para "ajudar" ainda mais a Espanha, entrou em acção mais uma vez a Maldição do José (Mourinho, óbvio). Em momentos críticos, Casillas falhou. Falhou na final da Liga dos Campeões, falhou no jogo com a Holanda e hoje, num momento crítico, voltou a falhar. A forma como aborda o remate de Alexi Sanchez com uma defesa para a frente da baliza foi demonstrativa da falta de confiança que o capitão espanhol tem nesta altura e propicía a recarga vitoriosa a Aranguíz, mesmo pressionado por dois defesas espanhóis.

Del Bosque está neste momento no mesmo plano que este grupo de jogadores: depois de tantos títulos e alegrias, o seu fim na selecção espanhola está perto. De certo que a crítica irá cair sobre ele, pelas opções da convocatória que tomou, que levaram inclusivamente Bruno Prata a dizer que a dada altura era a ideal para entrar Negredo... que não estava nos 23. Mas principalmente irá cair sobre ele todas as críticas pelas opções que tomou no banco de suplentes com estes 23 e a perder por 2-0 no jogo em que nem o empate era opção. A entrada de Koke teria lógica se a saída tivesse sido a de Busquets, jogador muito menos capacitado para a circulação de bola do que Xabi Alonso, que ainda por cima aparenta ser muito mais forte emocionalmente. Depois, trocar Diego Costa por Torres e ter como última opção Santi Cazorla, pedindo no final que os centrais subissem e assumissem a posição de avançados... não sei... parece-me uma coisa demasiado "queirosiana", demasiado teórica para a simplicidade do futebol.

Chile e Holanda têm agora pela frente um desafio para ver quem evita o inferno de defrontar o Brasil. Quanto à Espanha, resta-lhe o jogo de honra contra uma muito honrada Austrália, que não irá desperdiçar a hipótese de sair de cabeça bem levantada deste Mundial em que demonstrou orgulho, espírito de equipa e coração suficiente para nos fazer pensar que o pesadelo dos Campeões do Mundo pode ainda não ter terminado.

Nota final: nos últimos quatro Campeonatos do Mundo, três campeões foram afastados na Fase de Grupos (França 2002, Itália 2010 e agora Espanha 2014). A única excepção é o Brasil em 2006. No entanto, França e Itália foram eliminados apenas após os resultados da terceira jornada. Esta é a pior prestação de sempre de um Campeão do Mundo na história dos Mundiais.

17/06/2014

GRUPO G - ALEMANHA 4-0 PORTUGAL - QUANDO TUDO CORRE MAL, ALGUÉM FAZ CORRER AINDA PIOR


Foi um autêntico "panzer" psicológico o que se abateu sobre a Selecção Portuguesa hoje em Salvador da Bahía. Todos os cenários catastróficos que se podiam imaginar surgiram a dobrar e Portugal viu-se num autêntico cenário dantesco para o qual já deve ter percebido que a principal culpada é a própria equipa. Num jogo para recordar sob todas as perspectivas negativas para que se perceba que tudo o que se passou não pode acontecer no futuro, a Selecção Nacional inicia o Mundial com um resultado lisonjeiro para o que poderia ter sido e mesmo assim com a pior derrota em mais de 30 anos.

O jogo tem obrigatoriamente de ser dividido em duas partes. A primeira quando ainda estavam 11 portugueses em campo e a segunda em que só estavam 10. 

Os primeiros 10 minutos foram equilibrados e até foi a selecção a criar os primeiros dois lances de perigo. Depois, aos 12, entra mais uma vez em acção a arbitragem do Mundial 2014, que tem sido muito criticável, para ser meigo. Facto: João Pereira puxa e empurra Goetz. Facto: Goetz puxa e empurra João Pereira primeiro. Ambos discutem a posse de bola e posição com braços, logo o lance nunca pode ser decidido como falta do português.

O 1-0 caíu como uma bomba em cima da equipa portuguesa, que se destabilizou de forma incompreensível. Uma selecção com esta experiência não pode ficar assim só porque um penalti contra sí foi mal assinalado. Entretanto, a lesão de Hugo Almeida, que pouco trabalho deu à defesa alemã, proporcionou a entrada do melhor elemento português em campo hoje: Ederzito, o jogador do Sp. Braga que provavelmente assumirá de vez a titularidade da Selecção.

Já a perder por 2-0, num lance de mérito de Hummels (bela impulsão e timming perfeito de ataque à bola, impulsionado pela corrida que tem de trás), numa altura em que Portugal equilibrava a partida e voltava a criar perigo para a baliza de Manuel Neuer, Pepe torna-se o detonador de uma implosão brutal. Se as derrotas e as vitórias são colectivas, e toda a regra tem excepção, eu coloco inteiramente Pepe num regime excepcional a esta regra: o central é claramente o culpado da ecatombe de Portugal. Nem mesmo "safando-se" de uma primeira "traulitada" perante alguma complacência do árbitro se deixou ficar quieto no seu canto, pelo contrário dirigiu-se a Thomas Muller para dar uma cabeçada. Não vou em desculpas de pequena intensidade, de pouca força, do que seja. O lance é para expulsão clara e Pepe devia ser severamente castigado internamente pelo que fez.


Na segunda parte do jogo, a parte disputada pelos 10 jogadores restantes, não se pode fazer uma apreciação decente. Jogar com 10 elementos a partir dos 35 minutos, a perder por 2-0 e contra a Alemanha, é o cenário que nenhum treinador ou jogador deseja enfrentar. Para "ajudar à festa", a pior "baixa" que podíamos ter aconteceu: Fábio Coentrão lesionou-se com alguma gravidade e estará provavelmente fora do Mundial. Em suma, todos os erros, todas as falhas, todas as bolas perdidas e lances despropositados têm de ter em consideração o cenário atrás descrito associado ao facto de estar a ser constantemente "rabiado" pelos alemães. Só quem não esteve lá dentro em situações semelhantes poderá alegar que havia algo mais a fazer...

E agora?! Agora, está tudo na mesma como estava antes do jogo: em circunstâncias normais, duas vitórias são mais que suficientes para o apuramento para os oitavos de final e esse cenário, nada infernal, mantem-se. É preciso lamber as feridas, corrigir opções, olhar para o próximo jogo como se de uma eliminatória se tratasse e, acima de tudo, não esquecer o que se passou. Estes jogos não são para esquecer, são para lembrar muito bem. Porque no fundo, foi uma derrota grande, mas a guerra nem a meio vai ainda. 

16/06/2014

GRUPO F - ARGENTINA 2-1 BÓSNIA E HERZEGOVINA - TUDO NORMAL... E MESSI.


Se eu disser que este foi o jogo mais aborrecido do Mundial até ao momento, acho que poucos deverão discordar de mim. Confesso que na primeira parte cheguei a "apagar" alí por um minuto... Foi provavelmente a primeira vez que vi duas selecções alterarem o seu sistema em função do adversário, para algo com que se sentiam pouco à-vontade, e em que o adversário, obviamente, também mudou para algo para o qual esse novo sistema não se ajusta particularmente bem. Isso mesmo, quem ler esta frase acima dirá "que confusão" e isto define a primeira parte deste jogo: uma chata confusão.

É que até poderia ter dado para dar golos de toda a maneira e feitio, falhas defensivas das quais nos iríamos rir por pelo menos dois anos, coisas que nos chamassem à atenção... mas não. O cúmulo foi que até o único golo foi na própria baliza... Chato...

A Argentina apresentou-se com um sistema de três centrais, Garay, Fernandez, Campagnaro... e mais Rojo a lateral esquerdo, para todos eles poderem parar o exército bósnio constituido por Edin Dzeko... e mais ninguém. A Bósnia apresentou uma defesa com dois centrais, Spahic e Biçakçic, mas meteu Mujdza só para marcar Messi. Consta que no intervalo tiveram de lhe dizer que aquele não era o seu balneário...

Sabella, obviamente, não gostou da primeira parte e resolveu ao intervalo aquele ferrolho chato. Entraram Gago e Higuain e o equilíbrio da partida "foi-se", como que por magia. A Argentina começou a criar mais situações de perigo, a recuperar a bola sobre o meio campo e a lançar ofensivas com maior critério e até deu para Messi se libertar, abrir espaço entre a defesa e meio-campo adversários, trocar as voltas a dois defesas bósnios que bateram um no outro e disparar sem hipótese junto ao poste de Begovic. Tudo previsivel.
 
 

A Bósnia puxou do seu brio para causar algum trabalho à defesa argentina, conseguindo alguns lances perigosos depois da entrada de Visça e Ibisevic, mas Lulic e Misimovic estiveram completamente fora do jogo, acusando claramente a ansiedade de uma estreia num Mundial, ainda por cima frente à Argentina. O golo de Ibisevic é muito bem conseguido num dos raros lances com cabeça, tronco e membros desenvolvidos pela Bósnia, cujas finalizações foram quase sempre disparatadas.

Do lado Argentino, Di Maria continua em grande forma, preferia ver Rojo ao lado do Garay do que Fernandez que não me encheu propriamente as medidas, não acredito que Maxi Rodriguez e Campagnaro comecem muitos mais jogos a titular, acho que ainda vamos ver Enzo Perez a jogar naquele meio campo, e na frente além de Aguero, Higuain, Messi e o "centro-campista" Di Maria, ainda há um rapazito chamado Lavezzi que hoje não calçou. Vitória por 2-1 sem grandes stresses, seguem-se Irão e Nigéria, liderança provisória do Grupo F. Tudo normal.

GRUPO D - ITÁLIA 2-1 INGLATERRA - JOGO DE MUNDIAL


O dia de sábado teve para mim duas surpresas. A primeira é surpresa pela negativa e tem uma tonalidade de azul tão leve como a qualidade de futebol que praticou. Estou a falar do Uruguai, que é conhecido por ser aguerrido no meio campo e um terror para o adversário no ataque, sendo que o problema foi que esse meio campo cheio de garra e com entrega fácil nos homens da frente não existiu, a defesa baqueou frente a uma Costa Rica que tem um brilhante Joel Campbell e pouco mais, e a ausência de Luis Soarez não justifica tudo! Como só vi parte da segunda parte, este jogo não será alvo de análise, mas será interessante ver o Uruguai na segunda jornada.

A outra surpresa do dia, esta pela positiva, foi a Inglaterra. Não esperava uma selecção tão fresca, honestamente. As entradas no onze de Daniel Sturridge e Raheem Sterling, associados a um mais solto Welbeck dão à selecção inglesa uma rotatividade em termos da condução de bola que não se via há muito tempo. A esses ainda se junta Ross Barkley, um jogador explosivo e que permite à Inglaterra muito mais e melhores opções para procurar o golo, ao contrário do que se viu no EURO-2012. Apesar disto nem tudo são rosas, e os problemas da Inglaterra começam, a meu ver, logo no "timoneiro": Roy Hodgson é uma pessoa simpática, típicamente britânica no sentido de humor, a sua imagem transmite carinho, mas parece-me não ter "mãozinhas" para o carro que tem. Fiquei com essa sensação no EURO-2012 e continuo com a mesma sensação. 

A Inglaterra deixou a Itália em paz e sossego em trocas de bola no seu meio-campo sem qualquer tipo de pressão ou tentativa de recuperação de bola durante longo períodos. Deixou por isso a Itália nas suas "sete quintas" quando estava em vantagem, deixando-me uma ideia de pouca agressividade na tentativa de recuperação de bola. A única razão para este comportamento será o facto de Hodgson não conceber a mínima possibilidade de um desposicionamento defensivo e de ter dado muito jeito a derrota do Uruguai. Mas quando se está a perder por um golo e se tem como adversários ainda o Uruguai pela frente, seria de todo interessante procurar o melhor resultado possível com a Itália, direi eu...

Curiosamente, do outro lado temos a velha Itália, mas aquela Itália com um sabor a 2006. Sim, uma Itália forte a defender, como é hábito, mas que não tem medo de se aventurar no ataque, que não joga no contra-golpe em quase exclusividade, procurando mesmo em vantagem no marcador construir lances de ataque organizado, tirando o melhor partido da qualidade dos seus jogadores. Pirlo tem obviamente a batuta no seu pé direito e marca o ritmo do jogo, com Marchisio e De Rossi no apoio dr meio campo e um lado direito muito dinâmico onde pontificaram Candreva e Darmian, principais fornecedores de Super-Mario Balotelli.


Não é por acaso que este é, até ao momento, o melhor jogo do Mundial. As duas equipas estiveram durante a maior parte dos 90 minutos a atacar a baliza adversária. A Inglaterra entrou muito bem, criou duas grandes oportunidades para a baliza do substituto Sirigu (Buffon está lesionado, o que é pena), mas a Itália adiantou-se praticamente no primeiro remate efectivo à baliza de Joe Hart, num canto muito bem trabalhado e concluído por Marchisio. No minuto seguinte, golo de Sturridge a passe de Wayne Rooney. Balotelli marcou o 2-1 logo aos 50 minutos e enquanto houve pernas (principalmente nos dois miúdos Sterling e Sturridge), a Itália não descansou na defesa e procurou sempre o golo do descanso, que acabou por não surgir. Assim, tivémos jogo até ao fim, mesmo com algumas debilidades inglesas em virtude da muita juventude em campo.

 Este jogo permitiu-me perceber que a Itália está em bom nível e é preciso contar com ela e que a Inglaterra, que eu colocava na primeira visão dos grupos como sendo o Campeão do Mundo a descartar do Grupo D de caras, afinal tem argumentos mais que suficientes para arrumar com o Uruguai que vimos frente à Costa Rica. E os espectadores ficaram muito mais bem servidos do que se estivesse em campo a Itália "catenaccio" e a Inglaterra "polaco-ucraniana".


14/06/2014

GRUPO B - CHILE 3-1 AUSTRÁLIA - O CORAÇÃO NÃO CHEGOU!


O Mundial tem esta particularidade de permitir àqueles que se pensa que são "carne para canhão" fazer uns brilharetes e colocar em cheque o estatuto dos mais fortes. No encerramento da análise anterior não me coibi de afirmar que a Espanha iria agora discutir o apuramento com o Chile. É a verdade, mas poderia não ser em virtude do que a Austrália fez neste jogo.

Tenho para mim que o Chile é uma daquelas equipas "chatas" que apesar de não serem uma potência irão causar grandes problemas às equipas candidatas, Espanha e Holanda. A maioria coloca estas duas no topo da classificação, mas o andar da carruagem poderia estragar-lhes os planos. E neste momento tudo se prepara para a Espanha ter de sacar da calculadora.

Este jogo em particular previa-se que fosse um passeio em ritmo acelerado para os sul-americanos, uma vez que os Socceroos não têm actualmente a mesma qualidade que tinham em 2006, por exemplo, em que metade da selecção jogava na Premier League ou em campeonatos europeus. E confirmou-se que a Austrália tinha muitas dificuldades em jogar com a pressão exercida pelo meio campo chileno, que provocava constantes erros comprometedores e impediam a criação de um projecto de lance de ataque que fosse, mantendo a baliza de Ryan em constante sobressalto. 

Não foi surpresa o facto de o Chile inaugurar o marcador aos 12 minutos pelo "barcelonista" Alexi Sanchez e menos surpresa causou o 2-0 dois minutos depois num belo remate de Valdivia. A Austrália estava encostada às cordas e não parecia haver Isostar nem toalhas a abanar que a fizesse reerguer para o combate. Vidal (apesar de pouco dinâmico), Valdivia e Aranguiz dominavam as operações e a falta de capacidade de transporte da bola por parte da Austrália era evidente.

O problema disto tudo é quando entra na cabeça dos jogadores o célebre "isto 'tá ganho"! O Chile manteve o ritmo até cerca dos 20 minutos e depois progressivamente foi baixando o ritmo, procurando mais as trocas de bola sem o objectivo claro de causar mossa no adversário mas sim mais para descansar e nestas situações é vulgar perder-se o nosso próprio ritmo... e adormecer.



A Austrália joga em processos simples, de passe longo para Tim Cahill que segura e distribui geralmente para Bresciano. É quase uma forma de ganhar terreno como no raguebi, mas sem a bola sair de campo. Depois era procurar a finalização ou um passe para as alas a proporcionar o cruzamento de Franjic (na direita) ou de Davidson (na esquerda) à procura de Cahill na área. É portanto um futebol muito baseado na capacidade física dos jogadores. Apesar de pouco técnico, simples e de ser aparentemente fácil de enfrentar, a vantagem deste tipo de jogo é que com um jogador tecnicamente evoluído e com bom jogo aéreo como Tim Cahill, que apesar dos seus 34 anos tem capacidade física para lutar no meio dos centrais, só é preciso que a bola lhe chegue bem por uma única vez para se fazerem estragos. E assim aconteceu aos 35 minutos.

A Austrália teve então o seu Isostar e o Chile tremeu os joelhos com aquela cabeçada mesmo bem encaixada. A segunda parte então deu-nos um jogo muito interessante entre duas equipas com duas abordagens de futebol completamente diferentes mas ambas em busca do golo, num jogo aberto e muito divertido de se ver. E nos primeiros 20 minutos a Austrália teve várias vezes perto do golo, duas vezes em cruzamentos para cabeceamentos de Cahill e uma vez por Bresciano, naquele que foi para mim o momento do jogo, com um remate de primeira e recarga de seguida, ambos parados por Claudio Bravo que assim assegurou a vantagem do Chile.

O Chile acaba por vencer bem por 3-1, com o último golo já nas compensações, porque foi mais equipa, com melhor capacidade de circulação, mas enquanto a Austrália teve coração o Chile esteve no fio da navalha. A saída de Bresciano, completamente estoirado, marcou o fim da reacção dos Socceroos, pois Troisi não tem a capacidade técnica nem a visão de jogo do veterano de 34 anos que fez carreira em Itália e agora goza a reforma em actividade no Al-Gharafa, e por isso nos últimos 10 minutos o jogo foi todo do Chile, que acredito que irá tirar conclusões sobre os erros que cometeu e irá fazer de tudo para colocar a Espanha em muito maus lençóis para o apuramento.